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O Filho do Desejo – uma reflexão sobre a adoção
Desejar um filho não implica necessariamente estar
preparado para situações que poderão advir. A escolha pela adoção deve vir
acompanhada de um planejamento. Ao chegar ao seio familiar um filho escolhido,
semelhante ao processo do filho legítimo, esta criança, antes mesmo de nascer,
para estes pais já deve ter sido pensada e esperada. Mesmo que a adoção seja
uma “surpresa”, a constituição do vínculo deverá se fazer pela via do “estar
preparado” não somente no que tange a um planejamento socioeconômico, mas,
principalmente, um preparo psicológico. Ou seja, deverá existir nesses pais um
espaço que não seja preenchido pela dor, pela pena ou pela constatação da
negligência que uma criança abandonada convoca, mas sim pelo amor.
Adotar não é sinônimo de ajudar. Crianças são sábias e
não demorão a entender o por quê de estar ali. O amor, o vínculo, o educar e o
suportar serão duplamente testados antes de serem aceitos, pois o medo de serem
novamente abandonados é latente em filhos adotivos e levará um certo tempo para
que consigam relaxar e se entregarem para sentimentos que não conhecem. Pensar
que a criança adotada possa ser uma geradora de conflitos e de situações
problemáticas é, no mínimo, um erro, pois, nada nos garante que filhos
legítimos, durante seu processo de desenvolvimento, não apresentam problemas de
conduta, pois são inúmeras as famílias que vivenciam situações difíceis com
seus filhos biológicos.
Cuidar, ver crescer, preparar para a vida, não é uma
tarefa simples, independente de serem filhos adotivos ou biológicos. Tanto um
quanto o outro necessitam ser frutos do desejo e da preparação para tê-los,
mesmo que este desejo surja após o seu nascimento e de uma outra mãe.
Saber-se desejado é pelo menos um bom começo. Ser reconhecido
no olhar pode demorar um pouco, afinal, mães e filhos precisam de tempo para se
conhecerem.
No caso da adoção, é na construção do vínculo que acontece a gestação.
Jussara Ramos
Zanetti
Psicologa de
Orientação Psicanalítica
Especialista em Psicologia Clínica
Profissional
do NAP